O grande e o pequeno (Paulo Roberto Pires)

Dentre os convidados da décima Flip, Jonathan Franzen é autor do maior livro de ficção: 608 páginas. Alejandro Zambra, do menor: 94 páginas. Liberdade traz, em seu título, grandiloquência. Bonsai, miniatura.

Em literatura, tamanho é, sim, documento.

A Franzen, 52 anos, credita-se o prodígio de escrever, hoje, um romanção à Tolstoi, envolto em fumos épicos e pretensão retratista de fixar o Homem em seu tempo. Zambra, 37 anos, estreou na ficção vindo da poesia e dela não traz lirismo ou imagens, mas a mão firme da síntese: narra de forma rápida e elíptica, prefere o insinuado ao dito.

Em 2010, a Time deu a Franzen sua icônica capa, raramente dedicada a escritores – Mark Twain (!) levou uma em 2008 e Stephen King em 2000. Por Bonsai, Zambra ganhou em 2006 o Prêmio da Crítica e o Prêmio Altazor, ambos de seu país, como melhor romance do ano.

Franzen, como lembra Flávio Moura, declara-se discretamente no páreo para honrar o título de “grande escritor americano”, sucessor de uma linhagem que vem de Updike & cia. Zambra disse ao blog que gosta da “desordem das gerações”, do momento “estilisticamente desconcertante” que vive.

Ambos elegem casais como protagonistas. Walter e Paty percorrem, pelas mãos de Franzen, mais ou menos trinta anos de história americana e com ela se embolam. Julio e Emilia vivem apenas elipticamente a história de seu país, onde “se você não faz amor só pode foder ou fuder”.

Em Liberdade, o casamento sofre previsível erosão do tempo. Em Bonsai, o amor acaba na primeira linha.

Liberdade exige do leitor tempo, muito tempo – dedicação do tempo “nobre” da leitura. Bonsai pode ser lido num vôo Rio-SP – rapidez demonizada pelos que vêem nossos dias corroídos pela “fragmentação”.

Em seus muitos detalhes, Liberdade dura pouco. Como um princípio ativo, Bonsai continua agindo depois da última linha.

Franzen e Zambra são em tudo e por tudo produtos de experiências e tradições distintas. O criticamente correto me impediria de compará-los, já que postula a “diversidade” como marca da “literatura contemporânea” – o que nos ensina tanto sobre ela quanto o xadrez, como dizia o Millôr, desenvolve muito a capacidade de jogar xadrez.

Mas é entre o grande o pequeno que se fazem as escolhas necessárias.

Entre o grande autor, que busca plasmar uma época, e o pequeno, que esboça o instante. Entre o grande público, que reitera o que sabemos, e os vários pequenos grupos de leitores, que apostam, cada um por si, em experiências com o que não conhecem. Entre a narrativa que pela redundância quer recompor um lugar que a literatura (saudavelmente) perdeu e uma outra que busca a singularidade, mas não mais a vanguardice.

Nas grandes narrativas, as convenções têm que funcionar bem, as regras de composição devem ser observadas e os pontos de vista bem clarificados em um todo organizado. Nas pequenas, pode-se ir a um lugar mas não a outro, a parcialidade de ponto de vista é recorrente e a eventual imperfeição não é desleixo, mas desconfiança da forma.

O grande escritor quer-se separado do leitor: ele escreve. O pequeno é, fundamentalmente e talvez principalmente, leitor – e estabelece cumplicidade imediata com quem o lê. Assim como os amantes de Zambra, que leem antes de transar, vivem ambos a mesma volúpia.

No Brasil, a escala entre grande e pequeno traz tensão extra. No território fisicamente gigante, a literatura é acanhada quantitativa a expressivamente. Vive seu tamanho como uma sina infeliz. Almeja o que não tem e, nos piores casos, inconformada com a periferia, quer encorpar-se, colocar-se nas mais vistosas posições do mapa.

Mas em geral quer tornar-se grande pela ambigua certificação do público amplo, ombrear-se aos gigantes que vêm de fora, megasellers que ocupam listas e, supostamente, roubam leitores. Percebendo-se com apequenados, os pequenos procuram crescer como cópia (raramente bem sucedida) ou ainda como soldados arrogantes de seu ressentimento.

Entre os pequenos, é preciso fazer escolhas. E, em vez de viver seu tamanho como injustiça cósmica ou destino histórico, é possível fazer dele um projeto ativo. Em vez de nanico, miniatura. Em vez de capim, bonsai, que para viver requer cuidados extremos, atenção infinita.

Se a ideia da busca de um “grande escritor nacional” é hoje minoritária no Brasil, a do escritor bem sucedido ganha mais e mais força. Por sucesso, entenda-se aqui os estados fundamentais do que se quer grande: números expressivos, público amplo, brilhareco midiático – tudo junto num pacote que não necessariamente inclui a invenção e a surpresa.

Apostar no pequeno não é, no entanto, professar horror ao sucesso. É contrapor o gesto imperceptível à lógica do prodígio, do artista que causa espanto por suas façanhas – sejam elas criar um retrato de Dante com restos de pizza ou dançar vendado com um braço amarrado a uma perna.

O grande depende do sucesso. O pequeno é simplesmente livre – e pleno de possibilidades.

 

IMS | 03.07.2012, 14:52, here